quarta-feira, 22 de setembro de 2010
O palhaço
O espetáculo termina. A música cessa, as luzes se apagam, os espectadores dirigem-se lentamente à saída. Os artistas, por sua vez, satisfeitos, dirigem-se às suas cabines, para o descanso mais que merecido depois de mais um dia exaustivo de trabalho. Mas um deles permanece, imóvel, sentado no centro do picadeiro. Quem não o conhece dirá que ele se encontra imerso nos mais profundos pensamentos, e que reflete sobre coisas que jamais dirá a ninguém. Não é o caso daquele, rir-se-á qualquer um que acredite conhecê-lo, que o palhaço ali sentado não precisa fazer grande esforço para transpor o abismo que separa os sábios dos parvos. Mas este último irá se enganar desta vez. É verdade que, dentro da colorida roupa meio amarrotada e já semi despida, o seu pequeno raciocínio confunde-se e as ideias parecem tão borradas quanto a maquiagem que já começa a escorrer pelo seu rosto junto com pequenos rios de suor. Este homem que nasceu para ser palhaço não sabe ser outra coisa, e talvez jamais saiba fazer qualquer outra. Como o foi o seu pai, seu avô e os outros dois antes dele, gerações de homens com o dom inato de provocar o riso e encontrar a luz no fundo de corações os mais melancólicos, mas nesse momento em que a última das luzes se apaga por sob a lona, o picadeiro e a o palhaço sentado nele se encontram na mais profunda escuridão. Não seriam precisas quaisquer luzes para ver que não há alegria no coração deste pobre homem. Pensou que naquele momento não haveria ninguém a distraí-lo com piadas bobas, estripulias quaisquer, truques desses que fazem rir. Nem em nenhum outro. Imaginou se havia outros iguais a ele, mestres do chiste e incapazes de sorrirem diante de si mesmos. E nesse momento, talvez alguém diga que o mais bobo dos palhaços meteu-se num paradoxo inexplicável e que talvez seja assim que algumas das grandes ideias da humanidade apareceram. Mas ele nunca o saberá, este homem nasceu para palhaço e não para filósofo e assim se pergunta simplesmente quem o fará sorrir. Deus do riso nos breves momentos em diverte a todos, condenado ao inferno no momento em que lhe cai a armadura colorida e a máscara de tinta e sorrisos. Sentado assim, no escuro, concluiu que todas as piadas do mundo jamais teriam graça alguma, afinal, e que por toda a sua vida não fez nada a não ser oferecer aos outros o que vinha arrancando de si mesmo. Se não havia sobrado nada, a sua existência perderia o sentido. Não seria mais o palhaço de sorrisos falsos e alegrias vãs. Apertou os olhos, sentiu desejo de chorar e só então percebeu que também era incapaz de verter qualquer lágrima. Levantou-se devagar, caminhou em direção à porta de lona e, após uma breve hesitação, passou por ela sem olhar para trás. Por todo o dia seguinte o circo permaneceu fechado.
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