sábado, 31 de julho de 2010

Uma Pergunta

- Do que você tem medo?
Ele riu por alguns segundos, mas o sorriso logo desapareceu. Desconversou. Pensou por algum tempo, imaginando possibilidades. Concluiu, angustiado, que simplesmente não sabia. Como isto podia ser?
Desde então ele tinha se perguntado a mesma coisa, e tinha se respondido da mesma forma. Eu não sei, eu não sei. Ou talvez tenha medo de admitir o que quer que seja. Mas assim não conta. Pensou as coisas mais óbvias. Algumas pessoas tem medo da solidão, outras da morte. Algumas dizem não temer nada, e ele se indagou se esse não é o tipo de pessoa que prefere esconder seus segredos no fundo de um armário e não conseguem sequer ser sinceras consigo mesmas. Enfim, não dá pra esconder algo que não se sabe o que é.
Nesse esforço tentei recordar conversas anteriores, questões parecidas. Reparei a triste coincidência em cada uma delas. Reticências. Dúvida constante, incertezas. A mesma resposta, o mesmo sorriso amarelo. Percebi, angustiado, um medo terrível se apossar de mim.
Talvez seja isso. O não saber, as reticências. "Sei lá", "tanto faz". Repetidas e elevadas à enésima potência. Nem isso, nem aquilo. Fiquei pensando se algumas pessoas não vivem todo o tempo sem ter certeza nenhuma a respeito de si mesmas. Não importa se eu ficar só, não importa se eu morrer. A velha piada idiota. Não concordar nem discordar, muito antes pelo contrário. É a maneira de tornar as coisas mais fáceis, é um meio de bater de frente sem quebrar. Maleável, mas amorfo.
Amorfo. Eu não precisaria ter medos, vontades, nem nada assim. Elas dependem de onde, quando, como, por quê. Daí o desconcerto diante de uma pergunta tão despretensiosa como aquela. Eu jamais saberia. E foi assim que eu pensei que talvez esse fosse meu maior medo. Não saber, não me importar, ser amorfo. Ter um milhão de perguntas e nenhuma resposta. Temer mil coisas e desconhecê-las todas. Desejar outras mil, e não me importar com nenhuma. Ser um "tanto faz" ambulante, incapaz de cunhar minha marca no que quer que seja.
Naquela noite ele não dormiu mais. Por muito tempo procurou em vão obter respostas, até simplesmente esquecer o assunto. Maldisse a garota com suas perguntas estúpidas e decidiu que aquela era a sua melhor forma de viver. Morreu algum tempo depois, sozinho.

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