E quando nada fazia sentido eu procurava minha razão nos olhos dela. Por quê? Algumas respostas continuarão para sempre sem perguntas. Fato é que as noites são inacreditavelmente mais curtas quando se está insone. Um brinde, a que? Não sei. Talvez ao vinho que traz consigo a inspiração confusa e a calmaria. Talvez a ela, dona de uma verdade incontestável por sua abstração. Talvez à ressaca inevitável do despertar. Menos pelo vinho do que pela consciência que clama à porta e grita coisas. Como será amanhã, quando não houver mais vinho? As noites são menos escuras quando se está insone. O ruído do divagar, o silêncio da culpa, o barulho constante do remexer daqueles que deviam gozar do sono dos inocentes. No fim, o início de um ciclo decrescente de sabe-se lá o quê, que as idéias estão confusas e quem por acaso as compreenda certamente não dorme até que se tenha cumprido sua sentença ou foi aconchegar-se no seio dos que inebriam o corpo e adormecem a alma. Por favor, deixem-no descansar, que é durante as noites mais curtas que se mais extenua o espírito.
Imóvel, ela sussurra coisas. Aproximo-me mais para decifrar-lhe os sinais e encontro apenas o vazio que me dói nos olhos. O farfalhar constante daquelas que se revolvem porque deveriam estar adormecidas e não estão, porque não se lhes permitiu outra coisa além da inquietude e do desassossego, que precisam descansar. Preciso de uma cadeira. O sabor adocicado em minha boca vai-se tornando aos poucos acre. A noite pertence aos ruídos, às luzes, aos aromas. É quando tudo parece simples como fechar os olhos. De fato, não há nada tão singelo como a treva. A balbúrdia de pensamentos que acende um farol que cega.
Durante um segundo que pareceu eras, tudo esteve como que parado. Não havia música, ou cavalos de um carrossel imaginário onde tudo a rodopiar era ela. Por um segundo que pareceu eras ela falou, falou coisas. Juro que julguei perceber mesmo um quê de movimento em seus lábios, enquanto seus olhos me arrancavam a razão que julgava encontrar. Aos poucos e rapidamente era a noite que findava, que as noites são mais curtas quando se está insone. As luzes esmaeciam enquanto as sombras carregavam comigo para longe, para onde as noites são intermináveis, para aonde eu possa roubar-lhe de volta minha alma e dormir o sono dos que nada precisam temer.
5 comentários:
Postar um comentário