domingo, 3 de fevereiro de 2008

Pigmaleão às avessas

O homem de pedra é oco e cheio de rachaduras por dentro, mas isso não faz diferença para ninguém, exceto para ele mesmo. Os outros só vêem o que podem ver, ou o que querem ver. Mas isso não tem absolutamente importância alguma. Ele simplesmente não sabe.

Ninguém sabe há quanto tempo ele está lá. Nem por quanto tempo ainda ficará, parado. Talvez um dia ele caia, talvez um terremoto o arranque de seu pedestal e o faça em pedaços, expondo a sua ruína. Mas isso não tem importância alguma. O homem de pedra não conhece o tempo. Desconhece a morte.

Ninguém sabe, mas ele observa. Não pode fechar os olhos, e vê. Vê as pessoas, e as ouve, e fala, mas ninguém pode ouvi-lo. Ou talvez não compreendam. Seus olhos de pedra vêem mais do que gostaria e às vezes ele desejou não tê-los. Mas isso importa menos.

O homem de pedra é oco e cheio de rachaduras. Não sabe se tem uma alma, não sabe se há outros iguais a si, não pode ver além da direção para onde seu rosto foi voltado. Os pássaros parecem fazer troça de sua condição solitária e permanecem longe. Nunca conhecerá Galatéia. Ou talvez se compadeçam dele. Mas não faz diferença para ninguém, nem mesmo para ele. No momento apenas observa enquanto a bela jovem se senta e escreve.

“Talvez ele se maravilhe com seu belo reflexo no lago, tal qual um Narciso petrificado. Talvez possa me ver ou ouvir, ou talvez não, mas ele sente. Talvez seja amigo dos pássaros. Talvez ame. Quem sabe haja uma alma dentro desse ser de pedra. Talvez um dia tenha sido humano...”

Nunca mais será. Eu o condenei.

Um comentário:

Anônimo disse...
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