sexta-feira, 27 de outubro de 2006

Dia Comum

Devia ser onze e meia quando ele acordou. É relativamente tarde, mas aquele não precisava ser um dia diferente dos outros dias, e afinal de contas, era seu dia de folga. Fez a barba, escovou os dentes, e de passagem pelo espelho notou que seu rosto parecia curiosamente mais cândido aquela manhã. Não estava com fome; tomou seu café enquanto beliscava alguma coisa entre um ou outro e-mail, porque por capricho havia decidido que não iria almoçar. A maioria deles era apenas mensagens repassadas e uma ou outra bobagem dessas que alguém sempre acha que vai nos fazer rir. Aproveitou para acertar os últimos detalhes da sua viagem de férias, dali a dois meses. A muito custo conseguira ser promovido, aquelas férias lhe eram mais que merecidas.
A campainha tocou. Para sua surpresa, era sua mãe, que havia ido visitá-lo sem avisar. Conversaram sobre seus planos para o futuro, sobre a sua viagem, quase adiada por causa da doença dela. Sua mãe observou que ele vivia sozinho demais, precisava casar. Ele sorriu e disse que estava bem, ela não precisava se preocupar. Deram um passeio juntos, e ele a deixou em casa.
À tarde ele saiu para fazer algumas compras, e à volta ainda conseguiu abrir a porta a tempo de atender o telefone que tocava: era Ela, agradecendo pelo jantar e pelas flores da noite anterior. Nunca tinha estado tão feliz. Ela riu quando ele disse que a amava, e ele riu também; ele nunca fazia isso. Combinaram de passar o fim de semana juntos.
Era o dia do chope, mas ele estava tão empolgado com o livro que havia ganhado que resolveu não encontrar os amigos. Demorara tanto para começar a leitura, e agora encontrava-se completamente absorto nela. O relógio bateu dez horas, ele bocejou e sentiu o sono chegando. Marcou a página do livro e deixou-o na escrivaninha.
Saiu do banho, e foi a sala dar uma espiada na TV. Talvez houvesse algum filme ou programa interessante. Não havia, ele desligou a TV e resolveu ir dormir. O telefone tocou, mas seja lá quem fosse acabaria desistindo. Apagou todas as luzes, trancou as portas, deitou-se na cama e deu um tiro na boca.

2 comentários:

Alex disse...
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Anônimo disse...
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