Sentado olhando a porta branca fechada eu cheguei à conclusão de que a vida não tem nenhum sentido. Eu estava do lado de fora. Meus olhos lacrimejavam mas eu não estava chorando, era a porta branca que refletia a luz do sol diretamente nos meus olhos e aquilo doía. No entanto eu fitava a porta como se ela me prendesse, mas minha mente vagava a esmo como sempre acontece quando eu fixo o olhar em algo, e esse algo era a porta.
Daria para ver muito mais daqui, se eu quisesse. A sensação óbvia de superioridade deriva de se estar vendo as coisas de um ponto de vista mais alto, e chega ao ponto de sequer me dignar a olhar nada. Apenas olho, mas sem ver, porque como sempre acontece, meus olhos não estão aqui, minha mente menos ainda.
Eu poderia estar lá dentro, eu mesmo tenho a chave... mas aqui do lado de fora faz o silêncio que minha solidão precisa. O cômodo é pequeno, está vazio, mas há algo nele que me inspira um sentimento de agorafobia tão paradoxal, talvez seja porque eu sei que há milhares deles do outro lado, eu saio e fecho a porta. Sentado a porta branca me parece ainda mais branca do que antes, e com o reflexo do sol ela parece o próprio sol à medida que o foco se perde em direção ao vazio... está tão quieto do lado de fora...
Daqui de cima eu posso ver muito mais, se eu quiser. Daqui de cima o horizonte parece mais amplo, aquela casinhola eu nunca havia visto antes, tudo acontece ao meu redor mas eu não me importo porque não olho para baixo, quero ver o céu, quero imaginar a que distância fica aquela casinhola ali. Daqui de cima podem ver-me, também, e vêem e passam vendo e eu não vejo nada a não ser o que eu quero ver. Mas agora eu prefiro olhar a porta. De onde eu fito a porta branca não dá para ver o casebre, que por sinal é branco, nem podem ver-me os que passam lá embaixo. Aliás, também não posso vê-los. Daqui de cima do ponto onde fito a porta não posso ver mais do que a porta, branca, e as paredes meio ocre que a sustentam, eu não tinha dito que as paredes eram dessa cor. Detalhe insignificante, faz algumas horas que meu peito dói e eu não sei o porquê, só sei que dói mas dói menos, mesmo doendo de verdade.
Sentado olhando a porta branca fechada eu cheguei à conclusão de que a vida não tem sentido algum, mas para mim. Porque os que passam lá embaixo e me olham enquanto eu não me interesso em vê-los parecem perfeitamente felizes, e aposto que não vêem nada além do que está diante dos seus olhos. Duvido que alguém mais tenha notado aquela casinhola ali. Talvez daqui de cima eu veja algo que não deveria ver. Talvez a porta branca seja só uma porta, tanto que eu mesmo tenho a chave. E está na hora de abri-la, terei que adentrar o pequeno cômodo e nele permanecer por algumas horas sob o barulho infernal e a certeza dos outros do outro lado, mas me consola o fato de que a casinhola ainda está ali, linda e visível através destas vidraças. Sentado olhando a porta branca fechada eu cheguei à conclusão de que não cheguei a conclusão alguma, do lado de dentro a porta branca não tem graça alguma.
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