Mais uma vez eu me ponho a escrever coisas sem sentido. A tela brilhante se me apresenta como uma folha em branco, e o é. Entretanto, não há tinta alguma para preenchê-la. Tão branca como a folha, dispersa e difusa em meio a estímulos diversos, a minha imaginação divaga enquanto os dedos se movem a esmo pelo teclado. Onde estão meus olhos agora? Onde eu estou agora, quem é este que escreve? Quem é este que põe-se a escrever sem nenhum motivo, quem é este que escreve palavras confusas, o que são estas coisas? Perde-se o nexo, perdem-se as idéias, mas o texto permanece, o homem que escreve onde está? Está parado, mas não inerte. Movem-se-lhe os dedos, mais ainda movem-se coisas que ele nem percebe enquanto os dedos digitam involuntariamente coisas. Onde estão seus olhos agora? Será que em algum lugar todas estas palavras farão sentido?
Então eu abri os olhos e percebi que tudo era treva. A folha continuava ali, era a tela brilhante mas a treva. Onde estão meus olhos agora? Todo o mundo que eu conhecia fora até que eu descerrasse as pálpebras... eu estive sonhando todo este tempo?
A folha continua, mas menos vazia que dantes. Outrora, esses olhos vagavam perdidos em algum lugar onde as idéias não carecem nexo algum, onde a inércia resume-se à paz de uma folha vazia. Enfim, é a inspiração que chega, são os dedos que agora se movem sob comando e sob a vigilância daqueles olhos que agora parecem cansados... a luz hipnotiza, paralisa, os olhar perde-se no vazio ainda uma vez... mas é breve. Não perdem-se mais os dedos, eles não têm mais vida e põem-se a escrever o que deveria ser tudo o que não havia sido escrito. Onde estão os meus olhos agora?
Quem é este que escreve? Porque põe-se a escrever sem motivo, buscando numa folha em branco a inspiração para algo que não deseja? Porque esses olhos insistem em buscar o vazio, em busca da lógica de idéias vagas, de pensamentos desconexos? Porque esses dedos insistem em passear silenciosamente como se fizessem música, enquanto o homem que escreve nada ouve?
O homem que escreve pára e abre os olhos. Diante de si estende-se a folha, agora completamente maculada que nem sequer lê. Ainda há música, os seus olhos agora parecem menos perdidos e o olhar menos cansado. As mãos repousam e os dedos agora jazem inertes. Quem é este homem que escreve? Onde estão meus olhos agora?
Fecho os olhos. Um clique e tudo se torna claro pra mim. O meu mundo torna-se real até que eu os abra novamente e tudo sejam trevas.
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