terça-feira, 9 de maio de 2006

Sangue e Lixo

Ela estava sentada sobre o lixo. Mãos espalmadas sobre o chão frio, a saia mal cobrindo-lhe as coxas ainda belas, as pernas dobradas de qualquer modo, como quando ela caiu espalhando o pó e sujando a sala. Ela estava caída sobre o lixo. Era ainda bonita, e estava chorando. O rosto inchado e vermelho doía-lhe menos que o seu coração: o lixo era ela. Deveriam ser dez horas; ela ainda esboçou um sorriso e estendeu-lhe a mão carinhosamente: caiu sobre o lixo que acabara de juntar. Pacientemente levantou-se, limpando-se do lixo que não era nada perto das manchas que seu peito ostentava. Calmamente preparou o café-da-manhã – ainda eram quatro horas – lavou-se e admirou seu corpo no espelho, viu o quanto ainda era linda. Dirigiu-se para o quarto devagar. O aposento inteiro cheirava a bebida, e o mesmo braço que se estendera inúmeras vezes para sujá-la permanecia estendido. Ela tinha orgulho, nunca mais haveria de cair sobre o lixo, o lixo era ela. Apenas estendeu novamente o braço, o homem moveu-se na cama, a lâmina cortou o ar, o sangue espirrou manchando o lençol alvo e escorreu pelo corpo do homem. No chão, antes impecavelmente limpo, havia agora um corpo. Um lixo. O marido ressonou, resmungou algo ininteligível e virou para o outro lado. No chão, sangue e lixo.

Um comentário:

Anônimo disse...
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