- Pois é, senta aí.
Receei que a serenidade calculada com que aquelas palavras foram ditas escondesse alguma coisa. Puxei uma cadeira e usei o silêncio como escudo.
- E então, quantos desses já escreveu?
- Como eu vou saber? Sei lá, talvez uns vinte.
- Ótimo. Escreveu uns vinte bilhetes, e obviamente nunca entregou nenhum. Ou ninguém estaria sentado nessa cadeira agora. E aí?
- E aí o que?
- Não acha que está sendo dramático demais? É sério, isso tudo é completamente sem sentido. Escrever esse tipo de porcaria não tem graça nenhuma. Não vai servir de nada.
- Ah, você agora vai me dar lição de moral. Ótimo.
Decidi que o melhor a fazer seria continuar na defensiva. Não ia mesmo adiantar. A coisa teria funcionado muito bem, se por uma razão qualquer nós não tivéssemos escolhido lutar com as mesmas armas. Levantei, irritado.
- Certo, o que é essa merda toda? Você não é meu psiquiatra. Não é minha mãe, graças a Deus. Nem mesmo é a porcaria da voz da minha consciência ou o raio que o parta. O que vai ser?
- São só bilhetes de suicídio, seu imbecil!
- São, e daí? Eu escreveria um, cinco, oito, mil desses, tanto faz. Poderia não escrever nenhum e dar um tiro na minha cara agora, você sabe. Tanto faz.
- Não daria não. Você sabe que não vai adiantar.
- É, eu não daria não. Então qual o problema? Aliás, sabe o que eu acho? Você tem medo. Que um dia eu consiga mesmo estourar essa porcaria aqui e vá entregar o bilhete pessoalmente a Jesus de Nazaré ou ao raio que o parta. Qual é?
Esperei. Nada aconteceu.
- Então é isso?
Não obtive resposta.
- Psicologia reversa não vai funcionar comigo. Eu já sou louco.
Ele limitou-se a rir. Parecia estar lidando com uma criança.
- Droga! - Vociferei. - Eu já não vi esse filme antes? Toda essa besteirada de espelhos, personalidades duplas, triplas, quádruplas, o diabo a quatro, isso cansa. Ninguém vai aguentar todo esse negócio por muito tempo. O que você quer que eu faça?
- Você pode começar parando de fingir que alguma coisa vai acontecer só porque você diz que vai. Esse trabalho é meu, esqueceu? Se você não meter o bedelho nos meus negócios, eu não me meto nos seus.
- Mas é exatamente o que você está fazendo agora.
- Não dessa forma. Você não pode sair por aí escrevendo bilhetes de suicídio como se a coisa toda dependesse só da sua vontade. Não é assim. Não combinamos assim.
- Não combinamos assim, não combinamos assim. Pela trocentésima vez, eu sei que não. Mas eu cansei. Pronto, simples assim. Não tem história nenhuma e acabou. Não podemos simplesmente rasgar o contrato e fim de papo?
- Você acha que é assim que funciona? Isto não é como uma repartição pública qualquer, nós temos regras e se bem se lembra, foi você quem propôs o negócio. Nem sequer existe um contrato a ser rasgado. Termine a sua história, e eu termino com o resto. Daí você pode escrever os bilhetes que quiser.
Deixei meu corpo afundar na cadeira. Eu estava cansado. Se alguém me dissesse, meses atrás, que um dia eu estaria sentado na cadeira de um escritório discutindo termos de um contrato absurdo com um cara de terno que dizia ser a própria morte eu teria rido da sua cara, mas era exatamente isto que estava acontecendo. O que eu não conseguia entender era o que diabo se podia esperar de um escritor medíocre como eu era, e pior de tudo, eu não conseguia atinar com os motivos pelo qual fosse interessar a ela qualquer rabisco que eu lhes entregasse. Não sei que maior interesse podia haver no mundo dos vivos, se todo o trabalho enfim se resumia a levar pessoas para o lado de lá. Balancei a cabeça. A verdade é que eu não sabia sequer se havia mesmo proposto a coisa toda. Enfim, impossível dizer que nível de consciência se pode ter com uma bala atravessada no meio da cabeça. Da primeira vez não houve bilhete algum. Impossível dizer em que momento eu percebi que não iria funcionar. Mais difícil ainda é dizer se foi arrependimento ou remorso o que acabou por me fazer concordar com toda aquela ideia sem pé nem cabeça. Ou se, enfim, era apenas a necessidade de deixar um aviso. Eu precisava de mais tempo, ele me pediu uma história. Aceitei, como se parecesse fácil. Não era.
- Quanto tempo pode me dar?
- Não acha que já teve o suficiente?
- Se ao menos eu tivesse a menor ideia do que eu preciso fazer, eu diria que sim. Se ao menos você...
- Três semanas. Você acabará descobrindo o que colocar no papel. Apareça de mãos vazias e sabe o que vai acontecer.
- Mas é muito pouco tempo. Talvez eu não consiga.
- O problema é seu. Vai ter toda a eternidade para ficar se lamentando, nesse caso.
Levantei e caminhei em direção à porta sem dizer palavra. Mesmo de costas, como estava, podia adivinhar-lhe um sorriso de escárnio. Sem me voltar, dei um passo para fora, em direção às sombras, e a porta fechou-se às minhas costas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário