domingo, 1 de novembro de 2009
A pena e a navalha
E assim foi por dias, meses, anos talvez. Ninguém jamais saberá dizer por quanto tempo permaneceu assim. Era como se o tempo e todas as coisas tivessem perdido sua forma, escorrendo suave e indolentemente por entre os seus dedos. Em vão, ele tentou se convencer que estava apenas cansado. Que talvez fosse apenas preguiça. Não havia com o que se preocupar, só precisava esperar, afinal. Ela logo viria. Contudo, sabia que não. Pena e papel aguardavam pacientemente pela inspiração que parecia ter fugido e abandonado o homem que escreve à própria sorte. Traído, afinal, por aquela a quem havia entregado seu corpo e sua alma, e que no fim das contas não podia pertencer só a ele, que muitos são os homens que escrevem. Este homem tem o rosto apoiado nas mãos, e os cotovelos na mesa. Tem os olhos baços, e já as primeiras lágrimas parecem equilibrar-se fragilmente em suas pálpebras trêmulas, não tarda e é o homem que chora. Chuta, esmurra, encara desesperado a folha de papel ainda imaculada à sua frente e a rasga violentamente. Atira a mesa à parede, que se parte com um estrondo. Sai em busca de vinho, e não há mais. Em outros tempos, umas poucas taças bastariam para trazer-lhe aquela que, tendo de pertencer a muitos, por algumas horas seria só dele, e de nenhum outro. Mas não agora, e o homem que escreve jaz extenuado, sobre o velho assoalho de tábuas, entre pedaços de papel rasgado e restos de tinta que escorrem pelo chão como sangue. Inerte, os olhos abertos, a respiração suspensa, em sua mente revolta uma ideia cresce, febril, insuportável, incontrolável. É a cabeça que vai explodir se a ideia lhe cresce ainda mais, são as mãos que lhe comprimem as têmporas enquanto a voz lhe sai quase como um num grito, traidora é a palavra que mal se distingue entre os estertores da agonia deste que escrevia e agora já não escreve. Não pode destruí-la, não há vingança possível contra aquela que em outros tempos o havia inebriado e com ele passara noites quentes e intermináveis, e de quem agora depende tanto quanto do ar que agora mal respira. O ar desta noite é pesado, frio, o coração parece bater na garganta agora seca do homem que escreve, que se levanta de súbito e agarra uma pequeno volume num canto do quarto e o abre. A pena ou a navalha, únicas coisas que, sabia ele, o trariam paz. Hesitou. Sem compreender o porquê, acabou por se lembrar. Não gostava de pensar naquilo, não precisava levar a sério as coisas que ela havia dito, afinal. Que ela era tão diferente dele, no livro que suas vidas eram. A paranoia que era o dela, a caverna escura que era a dele. Que ninguém mais lia a não ser ela, ele sabia. Mas não podia ler, não havia nada para ser lido então. Não tinha o direito de ser a única, e no entanto era. Não sabia o que fazer, mas num impulso entendeu. Era tudo o que ela havia dito o tempo inteiro. E decidiu. Recolheu apressadamente os pedaços de papel que se espalhavam pelo quarto e começou a escrever furiosamente em cada um deles. Correu até a escrivaninha, apanhou uma folha ainda intacta e começou a juntá-los desordenadamente sobre ela. Se a inspiração o havia abandonado, ainda havia a vontade. Sorriu diante do trabalho que acabava de terminar e estendeu o papel diante dos próprios olhos, satisfeito com o resultado. Não eram mais do que palavras soltas, fragmentos colados a esmo, frases desconexas que não faziam sentido para qualquer um. Mas não para o homem que escreve, que ao decidir pela pena percebeu que escrever para ele sempre seria juntar pedaços soltos e com eles escrever a sua história. Salvo, enfim, o homem que escreve pode dormir em paz.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Um comentário:
Postar um comentário